Saúde

É possível ser viciado em comida?

22 de janeiro de 2019
É possível ser viciado em comida?

Todo mundo precisa comer. Isso é óbvio. Mas existe quem viva para comer e não coma para viver. Será que essas pessoas são viciadas em comida? É possível que isso exista?

“A dependência alimentar não é universalmente reconhecida pelos profissionais da área médica, mas existem profissionais que acreditam, com base em sua visão das pesquisas atuais, que é um conceito que tem utilidade”, diz Chevese Turner, diretora de política e estratégia da NationalEatingDisorderAssociation dos EUA (NEDA).

Ao contrário do alcoolismo ou do vício em narcóticos, você não encontrará a dependência alimentar no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. No entanto, você encontrará programas semelhantes aos Alcoólicos Anônimos que tratam desse mal. Apesar do vício não ser reconhecido na comunidade médica, existem pessoas tentando “consertá-lo”.

E tudo ainda é bastante recente. Segundo o Dr. Dráuzio Varella, por meio de seu blog, a primeira descoberta relevante no campo da obesidade só aconteceu nos anos 1990, quando Coleman e Friedman relataram que certos ratos obesos eram insaciáveis, porque apresentavam um defeito genético nas células do tecido adiposo, que as tornava deficientes na produção de leptina – hormônio ligado à inibição do apetite.

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Ou seja, ainda estamos engatinhando em termos científicos quando se fala sobre obesidade e problemas de desordem relacionada à comida. Alguns especialistas em distúrbios alimentares temem que um plano de tratamento que peça a supostos dependentes de alimentos que se abstenham de certos alimentos poderia estimular uma alimentação desordenada.

Os “sintomas” da dependência alimentar, de acordo com o FoodAddictsAnonymous, são um pouco questionáveis. O site pergunta: “Você já tentou dietas diferentes ou programas de emagrecimento, mas nenhum funcionou de forma permanente? Você come em casa para ninguém ver você? Você evita interações sociais porque você acha que não parece bom o suficiente ou não tem as roupas apropriadas? “


Todo gordo é viciado em comida?

A diferença entre pesquisa e fatshaming (quando se tenta envergonhar alguém por estar acima do peso) pode ser sutil a ponto de não conseguir ser percebida. Vivemos em uma cultura que policia a ingestão de alimentos e envergonha e intimida pessoas “acima do peso”.

Mas isso quer dizer que toda pessoa com alguns quilos além do padrão estético vigente é, na verdade, viciada em comida? Claro que não.

Outros sintomas listados por FoodAddictsAnonymous parecem mais legítimos. “Você se viu vomitando, usando laxantes, diuréticos ou se exercitando muito para evitar um ganho de pesodepois de ter comido muito?”, pergunta o site. Esse tipo de sintoma certamente aponta para uma alimentação desordenada, se não um vício alimentar.

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Talvez o distúrbio alimentar mais próximo à dependência alimentar seja o distúrbio da compulsão alimentar. Mas não são a mesma coisa. “A dependência alimentar é definida como causando uma preocupação com alimentos que proporcionam prazer intenso e aumenta a dopamina como drogas, álcool, compras, jogos de azar”, diz Turner.

No tratamento da dependência alimentar, a restrição não apenas não é abordada, como também é encorajada, diz Turner. Enquanto os especialistas em distúrbios alimentares concordam que alguns alimentos são projetados para serem tão saborosos e viciantes quanto possível (como as batatas fritas industrializadas) muitos temem que o conceito de dependência alimentar possa ser mais prejudicial do que útil.


Como entender?

Segundo Dráuzio Varella, o comer compulsivo é um padrão recorrente, frequente e que vem junto com a perda do controle. Ou seja, alguém que ingere grandes quantidades de alimentos de maneira rápida e não consegue parar de comer. Caso isso ocorra mais de duas vezes por semana, é preciso ficar alerta, é um sinal de compulsão.


Livre-se da compulsão alimentar

Talvez o principal passo para se livrar da compulsão alimentar seja mudar a relação que se tem com a comida e a raiz do que faz com que a comida se torne um escape.

Muita gente come suas emoções e acaba extrapolando em momentos de raiva, tristeza, estresse. E quando isso se prolonga, a dependência emocional da comida fica cada vez mais arraigada.

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Outro fator que leva à compulsão é a proibição. Afinal, o proibido é mais gostoso. Cada vez mais comuns no dia a dia de muitas pessoas, as dietas restritivas, por exemplo, levantam o seguinte questionamento: fazemos do alimento um aliado ou um inimigo?

A nutricionista Marcia Daskal comenta: “A ciência da nutrição já passou por diversas fases. Ovos, pães, manteiga, leite e muitos outros alimentos já foram vistos como vilões da nossa dieta. A comida virou tema científico, com quantidade, jeito certo de preparar e de consumir”.

Com tantas recomendações sobre o que deve ser ingerido, além das proibições, a informação que chega ao consumidor dificulta sua educação e autonomia no momento de definir o que pode ser incluído na rotina, e como isso deve ser feito – e isso vale principalmente para aqueles alimentos que proporcionam a sensação de prazer.

“Sentir-se feliz com a comida e com o próprio corpo não é uma realidade tão distante de nós a ponto de não podermos mudar o rumo da nossa alimentação. Quando foi que deixamos de levar marmita da festinha, com bolo e brigadeiro, para levar marmita para a festa? Comer não tem que ser chato e nem científico”, afirma a nutricionista.

Isso não significa que o caminho contra a compulsão é simples. Nem sempre é possível trilhar essa jornada só. Portanto, busque ajuda multidisciplinar de psicólogos, nutricionistas e médicos. Afinal, sua saúde vale mais que tudo.

 Fonte: Health Magazine. 

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